Disseste-me que, no amor, se trata apenas da carne. Minha pequenina, fugias a correr se um homem te confessasse que só queria a tua carne. E compreendias o que é a sensação atroz da solidão.
Milan Kundera in A Ignorância
Voltou a acontecer. Um habitante da pacata Estremoz, colega de labuta árdua, foi vítima dos larápios. Depois de há dois anos estabelecer um record com 3 assaltos numa semana, dois dos quais no mesmo dia, a história voltou a repetir-se. Desta vez, com um pouco de responsabilidade do próprio à mistura.
Bairro Alto, despedida de uma amiga que vai 6 meses para o estrangeiro (boa viagem, Andreia), e eis que o norte-alentejano decide mostrar a sua masculinidade na melhor forma que nós, gente de falo, o conseguimos, imbecilmente, fazer: através do álcool. Por cada imperial (essa instituição que eu irei apoiar nas próximas presidenciais) que colega X bebesse, o dito cujo beberia um shot. Só assisti a 3/4 de hora desta fantástica competição e ele já havia forrado o estômago com nada mais que 5 bombas, todas elas com um teor alcoólico verdadeiramente anestesiante (e, por consequência, enebriante). O melodrama continua num outro bar onde a palavra shot se resumia pequenos copos de vodka ou absinto, sem nada à mistura para não estragar o sabor.
Inevitavelmente, o proletariado estomacal decidiu tomar o poder e repelir, via oral, todo e qualquer alimento ingerido nas 6h anteriores. Quem não achou piada foi o dono do bar que, disfarçadamente, encaminhou tão prestado decorador de pisos para a calçada esburacada (e cagada) de Lisboa.
Depois de uma hora de estímulos, os restantes decidiram encaminhar o dito cujo colega em direcção ao veículo de um deles para que ele pudesse restabelecer-se na horizontal, com uma merecida soneca depois de esforço hercúleo, mas o recordista em causa decidiu que não queria ser trancado no carro. Tentaram explicar-lhe que era melhor, mas ele pediu, insistiu e exigiu e nada a havia a fazer. Assim foi. Adormeceu, qual bebé, no banco de trás do veículo de portas abertas. Uma hora depois acordou e reparou, para seu espanto, que o telemóvel e a carteira se tinham, subitamente, evaporado do seu bolso (bem como um MD do proprietário do carro)...
O dito cujo de nada se recorda.
Moral do relato: a história volta a repetir-se e, usualmente, acaba por redundar em piadas do género "Oh pá, liga para o X para irmos hoje para os copos" com uma série de risadas histéricas a posteriori.
Tenho dito.
Este é o título de um conto que escrevi há dois anos para um concurso. Não sei a que propósito, não encontro a versão final, mas o final é o que menos interessa nestas coisas da pseudo-literatura (porque as minhas capacidades não dão para mais)... Fica aqui, então, o conto para ser comentado, opinado, julgado, dissecado e outras actividades do foro anatómico e patológico. Quem quiser, complete-o como quiser e, se puder, envie-me o final.
Não perca, já a seguir. Aviso que é um pouco (bastante) extenso.
Ouvi dizer que o nosso amor acabou e eu não tive a noção do seu fim...
Ornatos passava no rádio. Como eles próprios o diriam.. Repetido ao expoente da loucura. Porque quando se ama, tudo é loucura e disso vive um amante.
Há muito que este sítio se tornou o meu refúgio. Não me refugia. Apenas que agrada a ideia de que posso fugir para um espaço só meu, ainda que todo o meu mundo venha na bagageira. Todos os momentos que foram. Todos os que poderiam ter sido e que se perderam na angústia do medo. E por isso me refugio. Porque à minha frente está um precipício e não há lugar entre mim e o nada. Tudo fica para trás, toca-me no ombro, sussurra-me ao ouvido... Mas à minha frente apenas o fundo invisível do abismo onde já não há opções, onde tudo se desfaz e se esquece numa bruma que parece sempre afundar-se e diluir-se... E afundar-se... E diluir-se...
Faz hoje uma semana que partiste. Provavelmente já deixaste de ser tema de conversa. Devem estar todos a comentar o quão mal educado eu sou por não estar lá, in loco, a prestar o culto com os santos, as cruzes e as mãos de terra. A tristeza das palavras em latim e das lágrimas guardo-a dentro de mim e atiro-a a este abismo que se estende, profundo, sob mim, que me recorda da intemporalidade das memórias e de como nunca morreste e nunca hás-de morrer senão para os pobres de espírito.. Ou, pura e simplesmente, para os desconhecidos.
A manhã acordou pesada. Como têm sido todos os dias sem ti. Sete dias. Deixei me vencer numa luta contra um lençol entrelaçado nas pernas (como tu fazias, lembras-te?..), mas a quem haveria dedicar a vitória? O nevoeiro ainda não levantou desde a semana passada. Pelo menos, não aquele que me tolda a vista. Não.. O nevoeiro mantém-se para todos. E novamente falto ao trabalho. Não consigo trabalhar. Não consigo produzir. Prefiro não interferir, não ser alvo de comentários, de olhares de soslaio, de frases a baixa voz, de gestos de pena e de reprovação e por isso entro no carro e guio (em automático) para aquele lugar onde tudo se esquece, onde fica apenas o mar de frente, mas na última semana, e hoje, de novo, não há nada senão o desconhecido. E tento despejar aqui a minha angústia de ter de me reinventar. Tu desfizeste-te de uma vez. Eu carrego a cruz de a ir deixando aos poucos. Só que não a deixo sozinha. Porque livrar-me da tristeza implica raspar a alma, até se renovarem peles e camadas e se perderem memórias, alegrias, tudo... E não tenho coragem. Primeiro tinha a tua imagem talhada em madeira, depois em baixo relevo de mármore, depois uma fotografia na cabeça.. E agora? Que me resta? A bruma borra os limites.. O teu cabelo, não lhe sinto o cheiro; os lábios.. onde acabava a curva e começava a perdição; o corpo... onde a cura se despedaçava em estilhaços de loucura. Quem és tu, agora que não és?
Ontem cheguei a casa já passava da meia noite. A lua minguava comigo e desaparecera já nos trejeitos do horizonte, entre estrelas que tentavam mais do que brilhavam. Olha ali a Ursa Maior. E ali a Ursa Menor. Dizias-me sempre isto quando o pano era preto e daqueles pequenos botões de céu, não porque gostasses de astronomia, mas porque isso te mantinha viva. Enquanto houver estradas para andar, a gente vai continuar. E agora ? Que as almas implodiram e as estrelas se apagaram? Que as carnes vão já cedendo espaço à terra, sendo carne-terra ou terra-carne, um e outro, os dois num até já nenhum ser o que é e tu acabares ? Mas afinal ainda és? Onde?
No dia seguinte a teres partido, decidi banhar-me gente para que os meus pecados se confundissem no turbilhão de massas comprimidas que não são nada. E só o nada se construía. E só o nada fazia sentido. Tanta gente e ninguém. 1 + 1 = 0. A + B + C = ???
Parei nos Armazéns do Ciado. Recordas-te do que dizias? Um crime! Mais valia ter ficado em cinzas do que ter sido transformado neste purgatório de almas consumistas. E sabes uma coisa?: elas continuam lá!, agitando corpos e carteiras, num burburinho de metal e papel timbrado com zeros. Estão completamente INDIFERENTES a ti, ao teu praguejar profético, à tua inexistência que carrego em angústia, que me curva até ao chão, onde o cheiro da terra e da borracha há muito se tornou irrespirável. Almas perdidas... Tentam encher o seu próprio vácuo com todo o tipo de coisas! De que vale encher um copo cujo fundo não existe?”. Perdoa-lhes Senhor, que não sabem o que fazem. Eles tentam. Que razões tenho eu? O copo estilhaçou-se. Não há nada para encher. Um vazio. Sem limites. Vou deixar-me no esquecimento até que o pó me intoxique de vez.
A minha mãe ligou-me. Convidou-me a ir a Sesimbra. A minha mãe. Que nunca me liga. Que nunca convida ninguém para o que quer que seja, de tão embrenhada que está na sua autocomiseração em grãos de areia repisados. Mas achei que valia o esforço e fui. Deve ter ouvido falado de ti. Ou deixado de ouvir. Se calhar, preocupa-se. Fui lá. Qualquer coisa que me ajudasse a repintar cenários, escondê-los, como o pintor usa a mesma tela para desenhar. Recebeu-me entusiasticamente, em sulcos cavados de felicidade. Não acreditei à primeira, mas deixei-a continuar. Chamou-me para junto do braseiro onde já estava a grelhar um pargo. A tua mãe só tem jeito para peixes... E mesmo esses acabam mortos no final, costumavas dizer. Uma não gostava da outra e vice-versa. Nunca o esconderam e eu agradeço por isso. Aproximei-me das brasas (mais do que dela) e ela finalizou: “Ouvi dizer que ela partiu!”. Ela. Já te esqueceram assim tão facilmente? Deixou o teu nome de ter força nas sílabas que te carregaram durante anos e anos? És só mais uma agora... Uma ela. Finalizou. Levantei-me e saí e deixei-a, pargo incluído, a esbracejar ao pé do braseiro. Não queria também perder a memória que tenho de ti. Não a posso contaminar com os ventos do esquecimento.
Ah! Do que me lembrei agora. Há cerca de um ano, aquilo que me disseste. Só agora o entendo. Pensei que fosse um devaneio de neo-princesinha, que quer fazer algo irresponsável para se convencer de que a idade não lhe matou a irreverência. Agora compreendo que te sentias a morrer, a sufocar por entre gente e mais gente e cumprimentos, festas e recepções, cordialidades e protocolos. E só em mim confiaste, só a mim me chamaste para te acompanhar. E eu pensei que era apenas uma birra, uma vontade incontrolável. Não soube ver para além. De tanto te conhecer, esqueci-me do que conhecia. E quando partiste não lhe consegui ver a lógica. Mas vejo-a agora tão nítida. Queres fugir comigo? Para um sítio que não exista? Chegamos lá num instante à pressa... Como eu gostava de te ouvir falar. Qualquer palavra tua soava a... a um repouso para onde me poderia sempre retirar quando o vento estivesse mais forte e os gritos do mundo me empurrassem para o precipício. Não percebi que já estavas a meio da queda, num precipício qualquer, agarrada a uma nesga de espaço que teimava em encurtar cada vez que o querias dominar. Para onde iríamos? Cairíamos os dois, num despique de velocidade para ver quem perdia primeiro? Quem era mais fim, mais nada? De que nos valeria? But then again (expressão de quem a opção deixa de ser opcional para se tornar numa ilusão com um final idêntico).. de que me vale ter ficado? Mas agarraste-te. Tentaste fazer-me perceber que era benvindo, que me receberias de bom grado dentro de ti, que a dois eram quatro olhos para ver e ouvir. Agora tudo é mais nítido. Agora é tarde.
Passeei um pouco pela praia. É das poucas sensações que me ficaram. Resisti muito a ti. No início, pelo menos. Mas ganhei este gosto à areia. Ainda não voltei ao mar, as ondas não fazem sentido. Quanto aos grãos, esses venceram-me. Ainda carregam o teu cheiro, a tua intimidade e gosto de os sentir a queimar-me os pés. Querias que te depositassem aqui. Queria que te depositassem aqui. Não mo permitiram. Demasiado herético, presumo. E quem fui eu na tua vida? Quem o sabe para além de ti? (por que razão ainda o guardas segredo?) Só neles me despojo, em género de homenagem à vontade que nunca te concederam. Talvez soubessem.
Também não me deste o que te pedi. Nem o meu último convite aceitaste. Não te dispuseste a esperar nem mais um segundo nessa tua ânsia de rasgar novos caminhos onde a água já secou e só existe a angústia dos falhados. Eu decidia o jantar e tu escolhias onde iríamos depois afogar em absinto, whisky e ginjinhas o nosso desprezo pelo resto do mundo. Não percebi que te afogavas mesmo aí: na descrença do álcool ou no ardor das palavras (onde estás tu agora? no fundo de um copo?).
E a lua continua a subir. A inchar, redonda, e a perder-se, pálida e anoréctica no manto plúmbeo da saudade.
Caía-te sempre uma lágrima..
Deixei-te um bilhete essa manhã. E uma mensagem no atendedor de chamadas, porque tu achavas que tudo o que fosse feito a dobrar ganhava uma certa autenticidade. Eu dizia-te És linda!. Tu pedias. Repete. És linda! E só aí sorrias. E como sorrias. Foi o primeiro pedaço de ti que amei. A forma como distribuías alegria, como contagiavas o ambiente com um bem-estar rasgado de orelha a orelha, mas, ao mesmo tempo, elegante e sóbrio, uma espécie de sorriso codificado, undercover, para que só alguns lhe pudessem aceder. Como eu, por exemplo. Ou qualquer outro vazio de espírito.
Pode a memória de um sorriso servir-me de consolo de todas as vezes que vir o sol a nascer ou um saco de plástico a dançar no vento? E quando o quiser partilhar contigo? Quando as palavras de cumplicidade se soltarem pelos cantos da boca, secos pelo tempo, e o murmúrio do teu nome for já a campa expurgada na minha vontade e dependência? Quem vou amar então? Em que sorriso irei eu renascer e ser criança?
Diz-me onde jaz esse instante de pureza que nos banha nos sonhos de outrém para nos sabermos viver...
Fiquei de passar por tua casa por volta das oito da noite. Vivias numas águas furtadas totalmente recuperadas no centro do Bairro Alto. Nunca te reflecti naquela casa, o aconchego que proporcionava, as linhas que desenhava entre a realidade e o sonho não te pertenciam. Nem a ti nem a ninguém. O cenário era demasiado idílico para ser perturbado. Por isso amava tanto aquele sítio. Seria, talvez, o teu refúgio. Como eu tenho o meu no vazio. Fiquei preso no trânsito e o tempo ultrapassou-me. Devo ter perdido uma meia hora em semáforos, stops e buzinões. Quando cheguei, encostei o carro e subi os lanços de escada. Bati a porta (porquê tanta aversão às campaínhas? As ditadoras do século XXI?) e só recebi o som absurdo do eco como resposta. Um atrás de outro. Tinhas-me dado uma chave há uns anos, mas nunca tinha tido coragem de a usar. Nunca houve necessidade.
Ainda acreditas na felicidade? Ainda acreditas que há uma alma gémea para cada um? Um ying para cada yeng? Um yeng para cada ying? E de que te valeu acreditar? De que me vale agora? A crença não é mais do que um cozinhado dos pressupostos que mais nos acordam e nos dão uma razão para acordar no dia seguinte. Fá-lo-íamos se soubessemos que não havia lá nada? Que a razão suprema de existência humana não existe? É ser nada? Pó insignificante? Caos?
Acreditei na perfeição dos corpos. Deixei-me envolver nessa crença patética que me incutiste de uma felicidade polaroid, instantânea. É só juntar-lhe água quente. E começa. E acaba. Unanimidade das almas? E agora? Agora, merda! Desculpa. Sei que não gostas que pragueje. Mas não o estou a fazer. Estes são os factos da vida, preto no branco, uma caracterização o mais imparcial possível. Uma merda.
Quando era criança, um velho sábio (de barbas brancas, tal como me gostavas de imaginar velho.. imaginavas-te ao meu lado?) deu-me uma receita (precária) da vida: meia vida à procura do amor; outra metade a tentar percebê-lo e comprová-lo; o resto da (in)existência para vivê-lo (ou morrê-lo.. como o desejas hoje?). E nem aí tive oportunidade. Se calhar perdi demasiado tempo. Se calhar nunca o tive. Tive-te algures? Quis saber mais longe, mais forte, mais fundo e acabei por perder a noção do que realmente queria até ser tarde demais.
E agora? Ainda acreditas na felicidade?
Deixei-me estar fora de portas. Deixei-me observar o tom neutro que me enchia o corpo de indiferença. Bati novamente à porta. Só o eco. Absurdo. A chave. Nunca a usei porque nunca houve necessidade. Via-a mais como um símbolo, uma prova de confiança. De que com ou sem barreiras serias sempre a mesma (será que ainda o és?). Um garante. Uma memória física. Como uma roupa esquecida. Ou o cheiro do teu corpo nos meus dedos. Ou o poema que te escrevi. Ainda o tens?
Se nunca tive em mim a dor
de Outono
É porque senti implacável a
brisa suave
dos teus dedos
E chamo o teu nome nos
lábios silenciosos.
Ouço-te distante
porque já não é o que foi
e não sinto mais
a ti.
Como estava perdido. E ainda não me encontrei. A porta. Tu. Onde estás? A memória do momento que antecede a verdade. O segundo de medo que nos anuncia que vivemos. Estranhei. Tirei a chave do bolso.
Afinal o que fomos nós? Chegámos a ser algo num ponto do tempo? Sempre tive orgulho (?!?) da nossa situação, do nosso pseudo status, da nossa relação cujos trâmites nunca foram definidos (ou, talvez, nem sequer existiram). Sempre vivemos no pressuposto de que dois segundos de olhares cruzados serviam para que compreendêssemos o que o outro desejava. Na realidade, apenas fiz o meu papel. Bem ou mal, representei-o. Mas digo-te agora, sob a idónea distância da memória saudosista, do caos total, sentido supremo, que, realmente, nunca te percebi. Aí residía a tua magia. Uma busca incessante por ti em ti que nunca tinha fim, pois sempre moramos nas nuvens, no etéreo (over the limitless boundaries of inexistence, dirias tu) e aí não há tempo a perder, não há esquinas onde te possa encurralar e obrigar-te a ser verdadeira, realidades com as quais te confronte e te comprove e te perceba. Só queria que fosses verdadeira. Tivesses sido. Verdadeira. Verdadeiramente verdadeira, quero eu dizer.
Sempre me incomodaram todos aqueles que pensam no momento em que tudo se começou a desmoronar, aquele instante no tempo que se afastou do tempo e a ilusão deixa de ter sentido e chega ao fim. Sinto pena da presunção humana que ultrapassa o limite e tenta ser dona. Não quero saber onde te perdi. Quero, antes, saber quando nos tornámos um deles. Quando acreditei que te tinha, que eras minha, que éramos donos de algo nosso, singular. Um sentimento, talvez.
Tive-te alguma vez?
Torna-se um pouco estupidificante agora. Tudo tem um tempo para ser. E o nosso acabou. Tarde demais.
No entulho da memória, desencanto algo. Lembras-te de onde nos conhecemos? É estranho que no fim a síntese do que nos ocorre se resuma ao início. Mas é assim a reles raça humana. Tão (im)previsível. Como se nos apercebessemos do princípio ou do final de algo. Foi numa tarde de Outono. Fins de Novembro. Um dia cinzento, carregado de uma chuva fustigante, que nos corta até aos ossos ao sabor do vento. Todas as tardes eu sentava-me numa mesa na parte de trás do Bénard. Já me conheciam. E como todas as tardes ocupei o meu espaço, o meu lugar no cenário. Agora o vejo idilicamente preparado para o nosso encontro. Um acaso do Destino. Uma série de factores que te empurraram para aquela sala retraída, baforenta, de aspecto velho-envernizado. Procuraste um lugar onde te sentar, que te permitisse descansar um pouco da intempérie. Trazias os cabelos molhados, reluzentes. Parecias um pouco perdida e por isso decidi ceder-te, gentilmente, uma cadeira que sobrava na minha mesa. Desculpa-me agora se impus a minha companhia. Mas agora também já não faz sentido. É tarde demais. E aquele tornou-se a única pintura ideal, o enquadramento perfeito. Conversámos durante horas até que as horas se forçaram sobre nós e saíste, desculpando-te, porque tinhas que fazer algo. Algo. Talvez consumires-te no vácuo do tempo.
O que aconteceu à tua memória? Quando é que os trovões soaram mais alto que os nossos gritos e nos ensombraram a alegria de sermos um? Em que esgar de lua cheia se esfumaram os contornos do nosso mundo? Bem tento saber se foi no Outono ou no Inferno que te ganhei e perdi. Onde estás? Quando me esqueci de ti? Quando é que a certeza de nós foi desfeita? Onde é esse poço de respostas onde caíste e de onde nunca mais quiseste voltar? Como é que o tempo te consumiu tão depressa e me deixou a meio gás, em lume brando na dolorosa consciência de que tudo o que começa tem um fim?
O som do trinco da porta soou bem alto dentro dos meus medos. O toque dos sinos pesados, ritmados na batida fúnebre do destino. A descoberta do que está para lá. Huxley. The doors of perception. A percepção de que algo não estava bem. De que o tempo se tinha adiantado no tempo e, subitamente, senti o peso da idade instantânea, aquela sensação que esperamos quando somos crianças e acordamos na madrugada do nosso aniversário com o pueril intuito de nos sentirmos envelhecer. E, naquele momento, deslocado do cenário idílico do sonho, a idade marcou presença. Os cabelos grisalhos. As bochechas caídas e a face ruborizada. O sobrolho cansado. Porque do outro lado da porta mais nada havia a fazer por nós.
Não sei se chegaste a sentir isso. Não sei sequer se ainda te lembras. E estive perdido de novo. À minha frente as perguntas e o vazio. Onde estava o Pensador para me lembrar que até o mais estúpido dos humanos aprende. Pra quem sabe olhar pra trás, nenhuma rua é sem saída. Apenas a fixação obsessiva do momento que esperava, da verdade em toda a sua plenitude, que, pela primeira vez, me resgatava do sonho. E eu tentei. Juro-te que tentei agarrar-me ao que já lá não estava. Fiz um esforço sobre-humano. E de que me adiantou? Sou humano como o resto do mundo. E o resto do mundo continuou a girar no mesmo sentido de sempre. Pequeninos. É o que somos. Eras o meu mundo. Agora que ele se desconstruiu, o Mundo avança sem olhar para trás. E só eu ainda não olhei para a frente.
Não sei se deva ficar grato ou desiludido contigo. Tristemente, um pouco de ambos. Mas que conclusão se deverá tirar? Deverei eu sentir-me especial por ser o escolhido? Ninguém gosta de ser o mensageiro das más notícias. E ninguém gosta deles. Não te lembras do que falámos? Que nos tempos medievais os portadores do desastre eram mortos por tal? Nem mesmo agora te compreendo. Porque foste? Sou único por ser o convidado de honra? Por, através de uma paralelismo macabro, ser o exclusivo visado nesta tua paródia do desconhecido?
Houve uma vez que me perguntaste se te amava. Não te respondi. Como poderia eu saber? Não percebeste que queria guardar no silêncio a minha vontade. Que se a verbalizasse ela se tornaria num comum desfile baconiano de emoções novelescas e de palavras sem sentido, de tão gasto estar o seu uso?
Porque no amor, um olhar basta.
Foste tu quem mo disse. Bem no início. Antes mesmo de ser. E naquela situação, puseste-me entre a espada e a parede. E odiei-te por isso. Por teres questionado o nosso sigilo. Até que me atingiu. Sentias o mundo a fugir sob os teus pés. E ninguém se pode agarrar a um olhar. Precisavas de uma palavra. De um sentimento. De uma confirmação física. De uma força que te ajudasse a restabelecer em segurança. E eu deixei-te cair. E a partir daí, nunca mais consegui ser digno de te ajudar. Transformei-me na porta que me abriste: aquela em direcção à passividade da audiência, a mesma indiferença que nos faz levar a colher de sopa à boca sem hesitar enquanto um festim de sangue se vai desenrolando num dos jornais da noite. Um espectador. Tornei-me nisso. E só agora lhe ganhei consciência. Vê o quão distraído estava.
Ultrapassei a ombreira da porta com a solenidade de quem se prepara para fazer os votos de casamento. Do outro lado, a tua sala contrastou com a minha disposição temerária de tal forma que os estores continuaram a bater numa percussão decadente. Pum pum. Pum pum. Pum pum. O sofá grená. A mesa de pau preto. As estantes onde arrumavas os clássicos feita por um qualquer amigo teu. O Graça Morais sempre observando. A aparelhagem a soar. Entra por essa porta agora. E diga que me adora. Você tem meia hora. Pra mudar a minha vida... Sempre irónica. Inteligentemente irónica. Tu. A vida. Porque para mim, tu e ela eram uma só. Agora são restos. Uma sobrevida, por assim dizer.
Não tenho tido paciência para escrever e por isso vou-me plagiar durante uns dias. Mas não é um plágio qualquer, nem a vossa função se deverá resumir à mera leitura. Avaliem. Opinem. Critiquem.
Aqui vai um pequeno conto. Pequeno mesmo... Algumas palavras apenas. Chama-se Inês e já tem uns 4 ou 5 anitos de idade.
É arrebatador ver como o tempo abranda quando se sofre. Os segundos tornam-se quantidades imensuráveis de pequenos nadas que nos torturam. Não preciso de procurar quando a vítima sou eu, só eu. E é desta letargia que se fazem os meus momentos, é sobre o vácuo que assento os pilares do meu presente, no meio de um deserto. Antes adormecido na brisa, sou agora abalado pela ventania, cheia de recordações em forma de lâminas e lanças e objectos pontiagudos, de gumes afiados dirigidos a mim. O pior é que não me matam, não dão as coisas por terminado. Insistem em rasgar, cortar, marcar, dilacerar tudo o que há para ser mutilado: eu e eu e... eu. Só eu.
Passaram seis meses desde que deixei de ser, da mesma forma que se retira um peluche a uma criança de três anos, e ela fica espantada e triste e não compreende. Parte-se um laço que se havia criado com a pureza, perde-se a inocência que sempre se ignorou mas que agora deixou (e deixa) um vazio, um pedaço de nós que se desprendeu e custa a cicatrizar-
A Inês foi-se num fim de tarde ameno, sem que se pudesse prever. Ou talvez sim. Quando tudo é puro e perfeito, não é humano e eu sentia-me carnal, todo carnal ainda que inocente. Tentei ser perfeito, tentei ser Deus e perdi tudo. Agora o tempo deixa sulcos enquanto me arrasta. O passado torna-se presente, como quando fixámos um ponto durante muito tempo. Passaram seis meses e estou só eu. A Inês foi-se num fim de tarde ameno, sem que eu pudesse prever...

Não sei se já ouviram falar. Eu não tinha ouvido. Larry Clark (o mesmo de Kids, Another Day In Paradise e Bully) e Edward Lachman assinam esta longa-metragem. Não tinha como objectivo este filme. O consciente ia atrás do filme para passar tempo, como um thriller ou uma comédia, mas chegado ao cinema, o poster do dito cujo filme esbarra-se com a susceptibilidade até das mentes mais distraídas. E como continha "cenas eventualmente chocantes para alguns telespectadores", lá vou eu...
Visalia, cidade do interior californiano, muito à medida das nossas vilas interiores. E o que se passa nesse desterro? A vida de 4 jovens neste monótono terreno do Tio Sam. Sexo, drogas, religião, incesto, humor negro, tudo bem misturado com uma fotografia bestial (não fosse o próprio Clark fotógrafo de profissão).
O retrato de um Tio Sam em decadência, mas que podia ser muito bem uma Amália, um Cervantes, um Ming, ou um outro qualquer ícone nacionalista.
Sem preconceitos, a "descritiva" (por oposição a narrativa, mas sem querer dar o cunho morto de descrição?) arrasta-se pelas vidas de Shawn, Claude, Peaches e Ken Park. A reter a crítica mordaz, quase anedótica sobre os estereótipos que Clark escolhe.
A ver.
P.S.: quando se fala em ferir susceptibilidades, fala-se em FERIR REALMENTE SUSCEPTIBILIDADES.. eles não estão a brincar.. pode ferir por ser verdade, pode ferir porque mexe na cicatriz, pode ferir porque contém cenas ainda mais explícitas que o sexualmente explícito.. mas se o caro leitor consegue aguentar o Jornal Nacional com a Manuela Moura Guedes, aguentará certamente com isto..
Início do ano académico. Os primeiros colegas da primária para uns, a professora rechonchuda, atenciosa, consciente do papel que tem na nossa formação. A passagem para o preparatório para outros. A partir de agora passam a ser classificados como mentes de 1ª a 5ª categoria. Existe ainda os que descobrem a escola de 0 a 20 e começam a sentir o cheiro das hormonas misturado com os químicos e as metáforas, as fotossínteses e a teoria económica de Keynes. Para outros, é o princípios dos horrores. A Universidade. O último passo antes da idade adulta na quase total acepção da palavra. Os horrores académicos traçam a sua diagonal em várias áreas. Frequências, exames, cataloguização segundo um número, anonimato, etc. São extensas as queixas (e as vantagens também, entenda-se) mas existe uma antevisão para todos.
A praxe.
Sou a favor da praxe. Sou a favor da tradição académica. Sou a favor do traje. Mas compreenda-se. Praxe não é tratar os alunos como cães. Ninguém bate nas praxes. Ninguém viola ninguém. A praxe nada mais é do que a teatralização da experiência de quem já frequenta o meio académico para aqueles que têm agora o seu primeiro contacto com ele. E se existem veteranos que acham que a praxe não passa de humilhar os caloiros, também existe aqueles que se lembram que tradição académica inclui, não só as palhaçadas da praxe, como também jantares, convívios, trocas de apontamentos, etc.
Para aqueles que se recusam a entender tão óbvio facto, sugiro algumas praxes específicas esclarecedoras do espírito em questão:
A praxe do metro - fantástica para cursos numerosos; atam-se todos os caloiros com corda, a meio metro de distância uns dos outros e leva-se para o metro; chegando lá, têm que tentar entrar no metro todos; obviamente, não conseguem e metade (pelo menos) fica de fora, presa aos que conseguiram entrar e vão a arrastar pelos carris do metro abaixo; quem não morrer no caminho é um bom caloiro.
A praxe do Eixo Norte-Sul - escolham uma passagem desnivelada superior qualquer; num passeio coloquem cerca de 10 caloiros e na outra outros 10; ambos os grupos devem segurar firmemente a extremidade de uma corda com um lenço ao meio, ao nível do centro da estrada/passagem; a partir daqui cada grupo puxa por si; como é natural acontecer neste tipo de jogos, um dos grupos lembrar-se-à de largar a corda ao que os outros, em desequilíbrio, irão caindo em pleno Eixo Norte-Sul; pode acontecer também que nenhum dos grupos queira largar e sinta realmente vontade de vencer, mas como o passeio é demasiado curto para os 10 conseguirem puxar com toda a força, alguns terão de ser arremessado passagem fora para fazerem peso já na vertical; no fim, ganha a equipa com mais sobreviventes.
A praxe do chouriço - esta é das brincadeiras mais antigas da história académica; um caloiro de pé, uma caloira que se ajoelha e vê o caloiro tirar algo das calças quando é vendada; esta praxe funciona com chouriços, salsichas, salpicões, bananas, ou seja, qualquer produto fumado ou fálico; a única diferença reside no facto de desta vez se tentar fazer com que a caloira em questão engula todo o chouriço de uma só vez; se conseguir fazê-lo sem morrer sufocada, é uma boa caloira.
Às vezes penso que existem pessoas que acham que a praxe é isto...
Não sou pessoa de sonhar enquanto durmo. Faço-o com bastante mais frequência consciente dos raios que me violam as pupilas. Reservo as noites (de sono) para o nada negro, uma cortina plúmbea que me proteja do pensar (porque não raciocinar é tão importante como fazê-lo). Gosto de ter 8 horas para não ser e, regra-geral, nesse período, não sou eu; sou apenas humano de sexo masculino, pedaço de gente em respiração constante e monótona.
São estas as razões que levam a que me estranhe quando sonho e, mais ainda, quando esse sonho começa a ser algo frequente. Agora, qualquer coisa serve de pretexto para entrar em devaneios psicotrópicos a altas horas da noite, qualquer pormenor não comum desperta uma súbita lógica surrealista que não tenho tempo nem paciência para interpretar (pede-se a quem acredite [?!?] em Freud que faça o favor)...
Aviso as mentes mais sensíveis. O que se segue pode ser entendido como chocante.
Este é o sonho.
Vou no carro, descansado, em mais uma manhã de trabalho. Subo as Amoreiras, passo pelo viaduto Duarte Pacheco e saio na direcção da A2, na estrada de acesso ao tabuleiro da ponte 25 de Abril. Cem metros depois de entrar no acesso, trânsito caótico, tudo parado. Mais algum carro que foi cheirar o cú a outro e assim sucessivamente. E, numa daquelas medidas temporais de Onyros que ninguém sabe muito bem quanto duram, a ponte 25 de Abril parte-se em dois, resultado de um violento abalo sísmico que não senti, mas que foi relatado na Ant3na. A mesma rádio anuncia que na Vasco da Gama sucedeu o mesmo. A metade da ponte do lado de Lisboa cai desamparada no rio (e os carros, numa parada tragico-cómica, tentam, a fundo, impedir a queda mais que óbvia nas águas pútridas do Tejo). Ao mesmo tempo, vejo o Alfa que vem do Pragal a entrar a alta velocidade na ponte e a sair, qual super-herói dos carris, em vôo picado para o fundo do rio.
E nisto tudo, a única coisa que me ocorreu foi: "Fixe! Não vou trabalhar hoje!"
Hoje quero ser dono do mundo. E para começar, apelo à consciência. Caso não funcione, chamarei o exército. Se é pela boca que morre o peixe, é pela cabeça que se mudam atitudes.
A ignorância e egocentrismo dos grandes leva a este tipo de situações.
Depois do encontro quase chocante ocorrido na estação de serviço anterior, os quilómetros vão ficando para trás, a par com as recordações que tentamos ignorar. Às vezes pensamos no que teria sido a nossa vida se tivesses tomado caminho X em bifurcação Y da nossa vida. Este é um dos panoramas que, inconscientemente, escolhemos contornar. Mas a paragem na outra estação de serviço foi tão fugaz que nem tempo houve de pensar em disfrutar um momento de paz interior no mais que óbvio mictório público (também conhecido e reconhecido como "mijadouro do pobo"). Consequência: 40 quilómetros adiante, nova paragem, desta vez com privilégio exclusivo da casa de banho com aquela figura estéril (e muito pouco masculina, adiante-se) que indica que mijar de pé é atrás daquela porta específica.
A porta está semi-aberta e atrás, observando pelo canto olho, está uma mulher de gatas, a esfregar violentamente o chão, num acto a que a palavra repulsa (tal é a imagem mental dos dejectos que por ali terão passado) não é suficiente para definir.
E não é que, visto o dorso apoiado em quatro, aquele corpo traz memórias ?
Na cabeça ecoava uma qualquer melodia de um Carlos Paião ou de um António Variações, criada no meio de uma bad trip nos anos 80's (poderia haver uma boa trip naquela época?)... Era qualquer coisa como "Eu vou, eu vou, mijar eu vou eu vou". A observação chocante daquele corpo revirado puxou-me o catarro. Tossi. Subitamente, a humana, até aqui quadrúpede, ergueu-se em duas pernas e falou:
- Desculpa, eu vou deixá-lo à vontad... Posso fazer uma pergunta indiscreta?
Estranhei, mas acedi.
- Você não é o Quim Tó Jaquim?!?
- Sim, e você é?!?
- A Clotilde Romana Claudisabelina.
Uma luz limpou-me a névoa que toldava as recordações. Como era possível não me lembrar de alguém cujo nome era tão pimba? Mas só o nome lembrava o passado, porque a figura estava completamente adulterada.
- Clotiiilde! Então, como andas rapariga?
- Vai-se andando. Não consegui acabar o 11º, engravidei do padeiro no ano seguinte, já sou mãe de 5 filhos e o padeiro foi "fazer pão para outro forno". Mas os meus filhos são a minha alegria, apesar de muitas vezes não ter forma de lhes por comida na mesa. Por isso, depois de limpar todas as casas de banho na A1, ainda me prostituo à noite. Não me posso queixar.
- Eu.. Eu vou andando.
- Então, não ias a casa de banho?!? Podíamos recordar velhos tempos..
A imagem mental foi agoniante.
- Não, deixa estar. Boa sorte para a tua vida.
- Mas o que é que tu tens fei..
A pergunta ficou a meio porque me apressei a sair. O passado estava em todo o lado, na forma de um presente cinzento. Não queria saber mais.
É frequente verem-se anúncios sobre reuniões de confraternização de antigos alunos da escola X do ano escolar Y, ou de uma qualquer divisão armada do Exército Português que combateu numa província ultramarina. É, no mínimo trágico-cómico rever a Manuelinha depois de 4 filhos, 3 maridos e duas lipoaspirações. Isto para nem falar do reencontro com o Toino, que, inevitavelmente, ainda tem problemas em dormir por causa da emboscada que foram vítimas na província do Hubango.
Vai daí, ocorreu-me desenhar mentalmente como gostaria de reencontrar todos aqueles que contribuíram com a sua palavra e presença para a minha formação...
E o resultado foi mais ou menos isto:
Estação de serviço de Antuã, na direcção Sul-Norte, a última antes de chegar à Invicta, com a mulher e os putos (um casalinho, ela mais velha e ele, consequentemente, mais novo), a caminho da minha cidade-natal para umas férias na pasmaceira.
Voz off: Gasóleo. Pode abastecer.
Nisto, encosta um Renault 5, com 43 anos e 700 mil quilómetros de onde sai o amigo alternativo, com namorado e namorada e uma t-shirt. O peso da idade na cara esburacada pelas drogas e fodas em tudo que mexa contrastava com a roupagem trançalhoca.
Eu - Quinel (nome fictício) ? És tu, pah?
Quinel - Huh? Aaah! Toniii.
Eu - Não é o Toni, pah! É o Jaquim (nome fictício), não te lembras? Foste da minha turma no secundário..
Quinel - Ah, pois é! Jaquim! Então, como tens andado?
Eu - O vento soprou em meu favor. Acabei o secundário, fui para a universidade, formei-me, criei uma empresa multi-milionária, casei com uma super-modelo com um QI de 180, tenho dois filhos.. Nada de mais! E tu, pah?!? Há anos que não sabia nada de ti..
Quinel - Eu? Comigo também tem tudo corrido de feição.. Quer dizer, com altos e baixos, mas não me posso queixar. Lembras-te quando desisti do 11º para ir à boleia para o Luxemburgo apanhar flores?
Eu - Sim, pah! Nunca mais ouvimos falar de ti desde aí..
Quinel - Pois, acontece que 3 meses depois de lá chegar, fui expulso sem receber um ordenado por organizar uma festa de recepção aos marcianos na viragem do milénio. Para comer tive de me prostituir e isso levou-me até à Ucrânia (onde as mulheres estão sedentas porque os maridos saíram do país à procura de melhores ares). Uma vez lá, fui raptado por uma máfia que me tirou um rim e o vendeu no mercado negro. Com a comissão fui para a Albânia onde fundei um culto religioso e desde aí percorro o mundo a espalhar a palavra do nosso deus, Conan! Aqueles são os meus servidores mais fiéis..
Eu - Ah! Pois, nem sei o que dizer. De certeza que são simpáticos... Eu.. Eu tenho de ir andando, a gente vê-se por aí..
Quinel - Ok! E lembra-te! Liberta o Shakra Kan para que a bolinha de energia positiva do Conan flua em ti...
Eu - Ok ok. Eu liberto. Tenho de ir indo que tenho família à espera.
Arranco a alta velocidade. Rever amigos de infância é estranho...
Cada vez mais os media são invadidos pelos super-jornalistas (ainda me escapa a razão desta denominação). Cada vez mais os media são o palco para os 15 minutos de fama warholianos de alguém. Cada vez mais os media animalizam as notícias, apelam ao gore dentro de cada um de nós, esquecendo-se de uma obrigação deontológica de informar. Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa (vou deixar de lado o ex-ministro socialista que ocupava espaço e ar com diarreia mental na RTP1... havê-los-ia, certamente, melhores) são, sem dúvida, bons oradores. Mas daí a serem peritos para opinar em toda e qualquer matéria, ainda vai uma distância.
O jornalismo está a mudar e sinal disso são um incremento no tempo disponibilizado para os noticiários. Mas estará esse tempo a ser aproveitado? Cai um presidente no estrangeiro e a notícia perde-se no emaranhado da informação. O João, criança de 13 anos da Corrieira, é obeso porque há 10 anos que come diariamente no McDonald's e tem direito a uma peça de 15 minutos e à abertura de uma conta de solidariedade nacional.
Serviço público: a actuação das 3 estações na questão dos fogos. Mas tê-lo-ão feito pelas melhores razões? Terá sido porque é importante toda a gente contribuir para favorecer aqueles que tudo perdem de um momento para o outro? Ou porque o português, como exemplar da raça humana, é atraído pelo grotesco (quadro onde o incêndio incontrolável e o cheiro a carne queimada se inserem)?
Consciência é o que se pede. Compreendo o espírito empresarial (até porque há bocas e famílias que dependem da produtividade dos canais), mas a sociedade também se educa e os media têm um papel fundamental nessa educação. O público português gosta de caralhadas porque só existe isso para ver. Experimentem transmitir só programas culturais. Naturalmente que os veriam porque não havia mais nada para ver. Ou então talvez passassem a ler mais. Não sei.
Dar palha a burros não me parece sensato se podemos dar caviar. Talvez assim, os burros evoluam. É darwinismo social.
(acabei de ler o que escrevi e compreendi que não faz sentido, mas não vou reescrevê-lo..)
O fim de Agosto é o tempo de todas as imbecilidades em Portugal. Não que estas não surjam ao longo do ano, mas o calor fugidio dos beirais de Agosto atinge um quadrante cerebral que exponencia a improdutividade intelectual.
Sem querer ferir susceptibilidades (pede-se a quem a tiver em carne viva, que use Betadine a priori), são três as pistas desta feira de vaidades em pôr-do-sol:
Rentrées Políticas
Ele é Ferro a babar-se por um lado, ele é Durão a baixar (de novo) os impostos, ele é Portas a palmilhar os kms de feira que embelezam o nosso país, ele é Carvalhas a falar do proletariado e dos problemas do proletariado e da necessidade de roubar o patronato para resolver os problemas do proletariado (ao qual se segue uma viagem para uma das herdades do dito cujo).
Realmente, não entendo o fervor de tais reentrées! É como se o apaixonado do Leixões acreditasse piamente que aquele seria o ano da consagração europeia do seu clube de bolso. Existe ainda alguém que acredite em promessas políticas, especialmente quando elas são feitas de mangas arregaçadas e com as inevitáveis manchas de suor nas axilas e costas (este é o método mais evoluído que o político encontrou de se "aproximar" das massas).
Refiro-me só às rentrées do bloco central. Vou ignorar CDS-PP e PCP porque há muito que não acrescentam nada aos seus discursos.
O PS deu o pontapé de saída pela boca do seu líder Ferro Rodrigues. Interromperam as férias para uma Escolinha de Verão onde diziam que o governo depende do Paulo Portas e mais Paulo Portas e também Paulo Portas. Estranhei. Só Paulo Portas foi criticado. Quem se desse ao trabalho de desperdiçar uns minutos para ouvir com mais atenção, repararia, com certeza, que nem uma crítica à governação foi feita pela coligação. Se estivesse distraído, acreditaria, por certo, que os ditos cujos governantes até estavam a a desempenhar o seu papel com qualidade. Como não estava assim tão absorto do mundo, registei também que este com tipo de oposição política, o país fica entregue ao dilema de escolher entre duas situações indesejáveis porque nenhuma é realmente uma alternativa à outra. E Ferro Rodrigues tem de fazer terapia da fala... (mas isto é como dizer que o céu é azul... é absolutamente redundante... )
O cardume do PSD liderado pelo cherne da moda também teve a sua dose anual de populismo, bandeira hasteada (talvez o PSD este ano vá à UEFA) para repetir as promessas de há um ano. Apenas uma me ficou presa no ouvido: os cortes nos impostos! Da última vez que Durão, Manuela e afins cortaram nos impostos, o IVA subiu para 19%. Sem comentários.
Procissões religiosas
Não sou uma pessoa religiosa. Acredito, mas há um pendor depressivo na religião (católica, entenda-se) que não me permite ignorar o corridinho de santos populares ao londo de Agosto. Aponto só duas questões (o argumento não conta em questões de fé):
Um dos mandamentos diz "Não farás imagens". É de mim ou estas são elementos constantes e que se multiplicam ao ritmo dos cogumelos nas Igrejas e procissões deste país? A frase não parece ter um segundo sentido, parece-me ser directa, mas cada um finge entender como quiser. O outro apontamento prende-se com o facto de o sofrimento unir tanta gente. Marx dizia que a religião é o ópio do povo. Mas se o povo está drogado, deveria estar com um sorrisinho nos lábios, não?
Movimentos migratórios
De Lisboa para o Norte. De Lisboa para o Algarve. Do estrangeiro para qualquer aldeia do interior. Estes são os três movimentos migratórios que fazem triplicar por breves momentos a população nacional. Subitamente, a língua do Fado é contaminada (no sentido cultural e não hitleriano) pela verborreia gaulesa, pela dureza do orgasmo alemão e o Portugal quase-mediterrânico transforma-se na Gibraltar portuguesa (é a invasão da bifa). Gosto da diversidade, sem dúvida. Contudo, nunca sei se devo falar em português ou numa outra língua qualquer. E outra questão que é verdadeiramente irritante: ir, normalmente, à nossa esplanada de preferência para ler o jornal envolto no silêncio da manhã e encontrá-la a transbordar de famílias com mais de 15 elementos que pedem um copo de água para acompanhar a sandes que trouxeram feita de casa.
Este é o circo de verão, de palhaços intermitentes e cuja tragédia só nos pode exigir o riso e a paródia, tal é o ridículo a que muitas situações chegam.